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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Vestido amarelo

 
 
Girl in a yellow dress, 1929-1931*


Ontem entrei num sebo e já estava disposta a ir embora por não ter achado nada que me interessasse, mas não conseguia sair.  Ia e voltava às prateleiras e mesas cheias de livros desanimadores, tanto quanto o senhorzinho e sua esposa, ambos sentados no fundo da longa sala retangular, não sei se me observando ou assistindo ao escurecer do dia.
Já havia estado ali outras vezes e conversado bastante, ele até me contou sobre sua vida profissional antes da aposentadoria. Eu não estava a fim de prosa, então fiquei procurando algo em silêncio. Claro, quando cheguei cumprimentei e  me calei. Minha cabeça anda cheia de questões sobre arte, o silêncio vinha disso.
Ao me dirigir mais uma vez para o lado esquerdo do espaço, finalmente vi a sessão de artes. Mui modesta. 
Matisse, li o nome na capa do pequeno livro. Em poucos segundos estava com ele na mão.
O antigo dono foi Edmond S... e a data junto da assinatura é a mesma da edição, 1953. Nome e data escritos numa letra inclinada, cujo sobrenome não pude ler direito. Ele deve ter comprado nos Estados Unidos logo que foi publicado. Quem sabe, morava em Nova York.
Livro de bolso, com o preço de 50 cents. Isso é que é ter acesso à cultura!
Matisse, ele é o que importa aqui. É um dos meus amores, há tempos aprecio sua obra, seus escritos. É dele o quadro acima (fico devendo o nome em francês). 
Não usaria um vestido amarelo, eu acho, mas me chamou atenção a imagem imediatamente, tanto que foi o que me motivou a comprar o livro por 10 reais já descontado um real pela cortesia do senhorzinho.
Eu demorei a achar o dinheiro, ele gentilmente me propos pagar num outro dia, talvez minha presença fizesse bem naquele lugar somente ocupado pelo casal, então minha volta seria boa. Bonito gesto dele porque de confiança em mim. Mas eis que a nota aparece numa de minhas carteiras e uma repentina disposição de falar, de contar que desenho e as imagens de obras de Matisse faziam crescer uma vontade de pintar.
O livro é do crítico de arte Clement Greenberg. Eu conheço este nome por conta do seu papel na vida artística de Jackson Pollock, para bem e, o que aparece no filme Pollock, para o mal. 
As descrições ou leituras breves deste quadro e também de Large interior in red foram decisivas para a compra. Nelas Greenberg fala claramente sobre o que vê com olhar atento e não resisti porque é justamente o assunto que anda me tomando várias horas do meu dia.


A certa altura do texto, ao se referir ao quadro Large..., Greenberg nos pede para notar como figura e fundo estão no mesmo plano de cor (color plane). Tão óbvio e se não pararmos para pensar, olhar, não vamos ver. Certamente esse elemento deve ser notado, e confesso que gosto da imagem sem que o fato me chamasse a atenção, mas está ali o tempo todo, sempre estará. É tudo vermelho.** 
Sobre o quadro da moça com vestido amarelo Greenberg aponta para  linha aparente, que tanto me interessa. 
Matisse parece ter apreciado o tema do vestido amarelo pois o retoma numa gravura em metal na técnica de água-tinta em cores


Marie-José en robe jaune, 1950




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* Fonte: Matisse, Clement Greenberg, New York, Abrams, Pocket Library of Great Art,1953.
** Vermelho não por igual mas não houve preocupação em representar o real. Matisse não faz distinção formal  de parede e piso, não faz uso de perspectiva para dar impressão de profundidade da sala. Na verdade, se observarmos mais um pouco,vamos notar que o vermelho é usado também na mesa à direita e no quadro em um tom mais escuro, isso eu digo e me arrisco, quem disse que a reprodução se presta a afirmações desse tipo?


domingo, 18 de abril de 2010

A arte de compartilhar a arte_vida e obra



Volto a falar sobre Árpád Szenes e Viera da Silva.
Na postagem em que comecei a falar sobre eles, havia dado tanto destaque à vida e ao relacionamento dos dois artistas que acabei por não apresentar obras de cada um deles, há só um quadro de Szenes. Eles não eram apenas marido e mulher, eram artistas, pintores, gravadores...

O quarto cinzento, Vieira da Silva, 1950

Aqui se pode ver o que mais me encanta na obra de Vieira da Silva.  A profusão de elementos dispostos no espaço. Outro recurso usado é o de manter a linha como estrutura aparente. E essa atenção que ponho sobre esse fato é inegavelmente porque a linha aparente no desenho adquiriu uma importância para mim mesma, como artista. Não estou insinuando algum tipo de influência da obra da artista em meu desenho, não tenho dúvida de que, no meu caso, a linha aparente surgiu de uma prática em que não me demorei a me dar conta do papel que essa linha foi assumindo no que fazia e, acredito, não de um contato anterior com obras de Helena vistas pessoalmente em uma exposição em São Paulo nos anos 1990 e posteriormente em livro.
Vieira da Silva também fez retratos de Szenes, que fez inúmeros dela.


                                          Retrato do Arpad, 1931, óleo s/tela

A gente se acostuma a ver os quadros de caráter abstrato de Vieira porque são os mais divulgados, mas fazia figurativo também. Gosto particularmente dos retratos, eles têm uma carga emocional imensa, isso é mais do que representar a aparência do retratado, fosse Árpád ou ela mesma.


 Arpad, 1942, guache s/cartão 

Auto-retrato*

Encontrei uma reprodução de um quadro de Vieira de 1944, que foi feito durante o período em que moraram no Brasil, chama-se História trágico-marítima ou O naufrágio, um óleo sobre tela e os traços feitos com mina de chumbo. Aqui aponto novamente a profusão de elementos, entre os quais se veem figuras humanas, caracterizando bem a situação de desespero de um naufrágio.


As cores usadas nessa pintura têm o poder de dar a dimensão da tragédia no mar, o que se passa se concentra ali naquela onda que lambe o barco e atira seus ocupantes nas águas em movimento de redemoinhos. Ele foi pintado em menção ao estado de guerra por que passava a Europa na época. 
Li, no blog de Luisa Lopes, mulheresesjs, que no Brasil Vieira da Silva se voltou à pintura figurativa, deixando um pouco de lado a abstração.
Ao que parece Luisa está correta, basta verificarmos a data deste outro quadro, eles permaneceram aqui de 1940 a 1947.

O desastre ou A guerra, 1942, ost


O que li num texto sobre a mostra Vieira da Silva no Brasil, de 2007, com curadoria de Nelson Aguilar, que também organizou o catálogo de mesmo nome, o que a teria levado a interromper seu caminho pela abstração: "'Aqui no Brasil ela usou o álibi do figurativo, senão ia ficar falando sozinha', diz Nelson Aguilar". A motivação de um artista nem sempre é espontânea, de acordo com seu desejo mais pessoal.
Não consigo me recordar da data exata em que vi um desenho ou gravura dela pessoalmente, mas a galeria é bem provável tenha sido a de Arte do Sesi, em São Paulo. Era algo parecido com este

Abstracção

Árpád Szenes, sua pintura não teve o destaque da de Vieira. Outro dia encontrei um blog em que estava sendo anunciada uma exposição com obras dele na Fundação Arpad Szenes e Vieira da Silva, em Lisboa, e o relato do autor do blog Infinito Pessoal sobre a exposição ser um tributo a ele, um resgaste do valor do artista. O post de 2007 tem como título "Arpad, ou por detrás de uma grande mulher...".
Szenes pintou Vieira da Silva,



mas também desenhou a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner


e a poeta brasileira Cecília Mirelles,


entre outros retratos.
Gosto de uma pequena biografia de Szenes que aparece no site do CAMJAP. Nela finalmente se tem uma apresentação de sua obra mais consistente, além dos dados propriamente biográficos. Desenhista, pintor... professor. Deu aulas no Rio de Janeiro. Quando Vieira da Silva retornou à Europa, Szenes só vijou depois de terminado o curso. 
Fizeram amigos no Brasil, a  retratada Cecília Meirelles, o artista gaúcho Carlos Scliar com quem aparecem nesta foto


Em 1943

Vale a pena ler o que Vieira da Silva escreveu a Scliar sobre a arte dele, é puro reconhecimento e incentivo, algo que considero uma rara oportunidade de ver: um artista encantado com a obra do outro, um outro mais jovem. Li em algum site que era um casal dado a incentivar artistas.

De Árpád Szenes, uma paisagem (?)


Leio em um site que Szenes e Vieira da Silva obtiveram cidadania francesa em 1956 e que ele teria sido reconhecido com exposições também no exterior e mesmo com condecorações do Estado francês. Isso é muito bom, tenho tristeza quando um artista que o mereça não seja reconhecido em vida. Aqui pareço dar uma informação contraditória, Szenes foi reconhecido, mas o fato é que a arte de Vieira da Silva foi muito mais divulgada que a dele, mesmo agora ainda é o que acontece.

De Vieira da Silva, livros e luz


L'issue lumineuse, Vieira da Silva

Ainda Árpád, mais uma vez Maria Helena em retrato


Poderia escrever muito sobre eles mas creio que já me alonguei por demais aqui. 
Eis os artistas Vieira da Silva e Szenes, eis o casal Árpád** e Maria Helena


                          

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* Para variar, as cores das reproduções são infiéis e não consigo dar conta de encontrar a mais próxima. No catálogo Vieira da Silva  no Brasil, de Nelson Aguilar, encontrei foto desse autorretrato em tons de azul. Sabe-se lá qual a verdade! Não tenho intuição para tanto.

** Quanto à grafia do nome do artista, ora vejo com acentos, ora sem. Já vi o sobrenome acentuado também.  Em Portugal não acentuam. Gosto de manter a grafia original do nome da pessoa. Ainda vou saber como se escreve o nome dele. Creio que com acentos.



segunda-feira, 22 de março de 2010

A arte de compartilhar a arte


Árpád Szenes e Maria Helena Vieira da Silva

Há cinqüenta anos vivo com essa senhora, não me cansei um só minuto e, ao contrário, não se passa um dia sem que me surpreenda e me comova com sua inteligência.

Esta frase não foi dita na época da foto acima, levou um bom tempo para ela ser dita por Árpád sobre Helena durante uma entrevista da jornalista Gardenia Garcia, publicada em 1978 numa antiga revista, Arte hoje (nº 11, pp. 32-35).
Gardenia escreveu que, ao ser apresentado a ela, Szenes lhe disse imaginar que ela passou um dia maravilhoso, por ter estado o tempo todo com sua mulher.
Não sei o que  mais me toca se a frase reproduzida na íntegra ou a sobre o dia da jornalista, tanto que, lendo a frase citada, fiquei a imaginar que tinha lhe atribuído uma beleza que só o tempo nos permite, quando as palavras do outro se transformam para pior ou melhor graças a nosso esquecimento de quais foram exatamente. Elas podem vir à memória misturadas às nossas próprias palavras.
Dois artistas, como disse na postagem anterior. 
A grande pintora portuguesa, naturalizada francesa, Vieira da Silva. Árpád Szenes, pintor húngaro, de menor sucesso e/ou reconhecimento. Pintaram em harmonia, viveram assim. Não posso afirmar que sem alguma discussão, mas, se houve, eles tornaram a se harmonizar, a muito provavelmente se incentivar e a se encantarem um com o outro, um com a arte do outro. Ambos a se admirar um com o outro. Crescendo juntos na vida e na arte.


No atelier



 Vieira da Silva pinta Árpád pintando

Não estou certa ainda de que este seja o título do quadro, não consegui informação exata em blogs como o de Rui Morais de Souza, onde encontrei reproduções do quadro, mas é de Szenes. 
Na verdade recolher informação na internet é correr riscos, acabo de encontrar um foto do quadro acima que provavelmente seja mais fiel ao original, Arpad Szenes, 1942, digo isso sem conhecimento da obra dele, usando minha intuição e outras fotos de obras do pintor.


Seria  bom poder contar com boas imagens no site da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, no entanto não me foi possível sequer visitá-lo, por algum problema que desconheço. Parece que preferem que se vá pessoalmente vê-las em logo ali em Portugal, é o modo como "protegem" a obra do artista, nos privam dela.
Como muitas vezes, começo apenas com o desejo de partilhar o que sei sobre artistas de que gosto e acabo fazendo críticas e apresentar questões que me preocupam em relação especialmente ao acesso à obra do artista. 
Desta vez mesmo a questão da fidelidade da foto à obra original se coloca. Sei um pouco disso pois andei tendo problemas ao mandar fotografar meus desenhos. Até entendo as limitações e características das câmeras, dos monitores e programas de computador, dos próprios profissionais, do olho humano, mas isso não tem sido suficiente. Apoiados nisso tudo, me parece haver deles um certo descaso, uma falta de curiosidade, de vontade de procurar fotografar obra de arte, que requer um tratamento diferente.
É um assunto espinhoso para mim, uns fotografam com a luz do sol, outros com lâmpadas especiais, todos fazem um trabalho de edição das imagens com o original presente. Não importa, é difícil a comunicação entre nós quase o tempo todo. Um deles me perguntou com base em que eu estava reclamando da foto em relação às cores. A resposta foi em meu desenho, a foto deve reproduzir o desenho obviamente, ou não? 
Já me estendi demais no assunto agora.


Em Paris, 1960

Ainda há muito o que falar de Árpád e Maria Helena. Nesta foto eles já há muito haviam voltado à Europa mas passaram um tempo no Rio de Janeiro na época do nazismo. A história de por que vieram em 1940 é um capítulo à parte da vida deles, no qual não vou me aprofundar. Digo apenas que Szenes era judeu húngaro e que Helena, ao tentar obter cidadania portuguesa de volta, pois há muito vivia na França, teve o pedido negado pelo governo, o que envergonha até hoje os portugueses que tomam conhecimento do fato, pode-se ver algo sobre isso em Vidas Lusófonas.


No Brasil*


Ficaram aqui até 1947. Durante esse tempo, ao que parece, Helena fez várias exposições, influenciaram alguns artistas com sua arte Certamente trouxeram novidades da arte europeia. Szenes deu aulas aqui.
Aqui como lá, eles acolhiam jovens artistas. Carlos Scliar, pintor brasileiro, foi um deles, basta ver no site Pitoresco.
Eu mergulhei tanto em sua história que vou ter de continuar numa próxima postagem. Afinal, felizmente eles tiveram vida longa, como se pode notar na foto de Maria do Carmo Galvão Teles, de 1984.




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* Correção: Não, eles não estão no Brasil nesta foto. Ao consultar o livro Vieira da Silva, de Gisela Rosenthal, verifiquei que se trata do atelier no boulevard Saint-Jacques em Paris, no ano de 1938, ou seja, antes da vinda deles ao País.
Como já disse, é preciso muito cuidado com informações de sites na internet. O velho e bom livro é fonte mais segura. 






sábado, 6 de março de 2010

Leonilson


 

Leonilson foi um artista que tive o prazer de descobrir nos anos 1980. Via fotos, depoimentos e textos com críticas sobre sua obra em revistas de arte como o Guia das artes e a Galeria. Acho que não foi nessa época que comecei a ler/ouvir a opinião de Leonilson sobre arte, sobre expor; foi depois de seu falecimento em 1993.
Um dia assisti a um vídeo na TV Cultura, era Com o oceando inteiro para nadar, de Karen Harley. Até agora não consegui rever o vídeo, só há uns trechos à disposição no site do Projeto Leonilson. Gosto do vídeo, há outros vídeos no site mas é preciso ir até o Projeto para ver na íntegra, o que considero muito importante para quem quer conhecer um pouco o artista, embora o principal sejam suas obras.
Os responsáveis devem ter sua justificativa para não permitirem que os vídeos possam ser vistos na internet, mas fico triste, isso poderia divulgar mais a arte de Leonilson, mas as famílias de artistas falecidos fazem o que julgam melhor. 
Aliás, já li e ouvi coisas de espantar sobre esse assunto, se não me engano a família de Alfredo Volpi não permitiu a inclusão de fotos de quadros dele num catálogo de exposição ou foi num livro sobre o artista. Sem falar nos familiares que permitem a reprodução de obras em livros etc. mas cobram altíssimo para isso, tornando a coisa impossível.
Bem, de volta a Leonilson.
A arte dele é de uma poesia como poucas. Os desenhos em nanquim, os bordados, as palavras... sim, Leonilson escrevia. O que sentia, o que pensava da vida, do amor ou não que há na vida. Poesia mesmo. Reflexão. Sua vida.

   

  

  
 
Voilá mon coeur (Here is my heart), c. 1989, bordado e cristais s/feltro
[Frente e verso] 

Pintou e também fez múltiplos em bronze fundido:

 
Sem título, 1990/1991

Nasceu no Ceará, na cidade de Fortaleza em 1957, 
fez arte

 

fez arte 



fez arte 
e faleceu jovem, na cidade de São Paulo em 1993, em consequência de complicações da aids.
A arte permanece vivo Leonilson.

 
Leonilson fotografado por Pablo de Giulio