sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de maio de 1888 | May 13th 1888


No dia 13 de maio de 1888, princesa Isabel assinou a Lei Áurea promovendo a abolição dos escravos.
Hoje é 13 de maio de 2011, não vou tecer comentários* sobre esse ato histórico da princesa que pode ser comemorado, pode muitas vezes ser ignorado, pode ser motivo de alegria e de vergonha e para outros deve ser esquecido, pode parecer não ter acontecido, pode ser confundido com justiça, pode ter sido apenas para se livrar de uma situação embaraçosa perante o mundo ou para libertar os próprios esgravagistas dos encargos com escravos e da pressão de abolicionistas. O Brasil foi dos últimos a tomar uma decisão como essa.
Sou negra, 


e parte dos meus ancestrais vieram ao país trazidos em navios negreiros1

 

para servirem de escravos.
Desde que vi imagem semelhante a essa pela primeira vez, foi em 1983, não me esqueci mais, impressionada2




Como artista lido com imagem, volta e meia me pergunto como posso me "apropriar"3 dessa imagem do navio negreiro como artista, e sim como negra, pois o navio negreiro é a construção de uma memória de algo que não vivi mas herdei

N.N. | S.S., ~2006
Monotipia e pintura s/papel


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* Há pessoas talhadas para argumentar e contar o que foi mesmo a Lei Áurea, como os historiadores, pesquisadores. Li, faz muito tempo, em algum texto que a situação dos negros não ficou exatamente dourada e sabemos que ainda não é. 
Sabe-se mais: atualmente há quem escravize outras pessoas de inúmeras maneiras.
1. Essa imagem representa uma possível distribuição dos escravos num dos porões de um desses navios ou tumbeiros, outro nome dado a essas embarcações em que homens, mulheres e crianças negros eram transportados de África para vários lugares do mundo, sempre para se tornarem escravos.  
2. Aqui é um detalhe do esquema para uma ocupação total da área do porão. A mim isso impressiona muito cada vez que vejo e penso que se tratava de seres humanos e não de mercadorias.
3. É um projeto em que venho trabalhando e não sei ainda quando vai se completar, na verdade como vai tomar corpo de fato e poder ser mostrado não como um espetáculo.


ML_ Não foi uma decisão simples resolver escrever aqui sobre o assunto da lei, da escravidão. Para uma boa parte da população isso não é coisa que se comente. Vi um quase nada de comentários ou menção à data histórica. Nas emissoras de televisão a que assisti preferiram tratar da superstição de azares e sortes do dia 13, foram até mesmo passar por debaixo de escadas munidos de suas câmeras e o desfile de Gisele Bündchen pela primeira vez usando uma lingerie foi destaque também. 
Ouvi de um jornalista que a abolição da escravatura foi, sim, uma coisa importante para os negros mas que foi para os brancos porque se tornaram livres...
Não tive tempo de procurar textos, links para sugerir.
Assunto delicado, embaraçoso, acho que até essa postagem eu estava com esse mal-estar de alguns ao ponto de me calar também. Por um certo tempo meu silêncio se deu por eu não perceber que ser diferente, como ter a pele escura, levava alguns a ter ideias preconcebida sobre uma pessoa. Então depois de aprender isso eu me calei mais ainda. 
Não faz muito anos que a consciência de ser negra passou a ser parte de mim como afirmação essencial, como valorização mesmo dos meus ancestrais, das minhas raízes que se estendem até a África. Isso foi nas tantas conversas com Pedro, que com seu olhar foi descobrindo a África nos meus desenhos e me mostrou.


This text is about the 13th May 1888, the year of the princess Isabel signed the famous 'Golden Law' ("Lei Aurea") in Brazil. It was one of the last nations in the western world to abolish slavery. I am  a black woman and here I try to say sometihng about this and remember my black ancestors who were slaves. And show two images of a slave ship, the last is a monotype that I made inspired in a old scheme of one of these slave ships. 
I write about my necessity of remember this fact and all despite the dificulties and think.

Ver também:





domingo, 17 de abril de 2011

Recomendo_Exposição


Ontem estava em frente ao computador quando minha mãe me disse ter assistido a uma reportagem sobre exposição na cidade, mas só se lembrava do nome da rua do local: Benjamin Constant. Ela ainda comentou que eu acharia na internet.
Com esses dados me pus a pensar o que mesmo tem de espaço nessa rua onde pudesse haver exposição. Eu, na verdade, me perguntei isso. E depois de percorrer a rua mentalmente, topei com o MACC, o Museu de Arte Contemporânea de Campinas


Só podia ser! Nada como a internet e um buscador razoável. Logo achei a notícia completa e com direito a vídeo no site da RAC. Trata-se da exposição Até um quilo do grupo paulistano ALUGA-SE, com depoimento de Fernando de Bittencourt, curador do Museu,  e de Adrina da Conceição, artista visual e arquiteta.


Não vou me propor a descrever, a falar sobre porque ainda não fui até lá e o vídeo é bastante claro.  As obras que se podem ver nele já me fazem ter vontade de ir pessoalmente ao MACC, ver de perto é que vai me fazer certamente ter uma opinião, impressões sobre o que está em exposição.
Gostei da proposta do ALUGA-SE e especialmente do fato de a exposição ser aqui na cidade, eventos culturais sempre me interessam e Campinas precisa de mais eventos desse tipo.
Algo que é bem diferente são as regras de participação na exposição, que tem caráter itinerante, vai ainda para outras cidades. Artistas de todo o país e mesmo do exterior têm de ser convidados e precisam respeitar o modo de envio das obras.
Estou ansiosa para ver o resultado dessa pecualiridade da exposição, que pode de fato trazer muitas surpresas ao visitante mas que sem dúvida antes deve ter surpreendido aos próprios artistas, que, como diz Adriana, faz com que o artista tenha de se adaptar aos critérios, evidentemente preservando ou não certas características de sua arte, e necessariamente incorporando novas soluções.

Exposição Até meio quilo
De 14 de abril a 8 de maio
MACC
Rua Benjamin Constant, 1633, Centro
Campinas - SP
(19) 3236-4716 e 2116-0346

Visitação: de terça a sexta-feira, das 9 às 17h
Aos sábados, das 9 às 16h
Aos domingos e feriados, das 9 às 13h
Entrada Gratuita

SOBRE O ALUGA-SE

domingo, 27 de março de 2011

As câmeras que uso*

 
Antes de enveredar pela experimentação com filme preto e branco, por receio de não me acertar com câmera SLR 35 mm, usei filme colorido. No caso, comprei um bem mais barato que o P&B para me sentir mais à vontade, mas não me permitindo escolher um filme que não tivesse uma certa qualidade porque, afinal, podia fazer uma bela foto.
SLR quer dizer single lens reflex, é o que se chama comumente de câmera monorreflex, pois ela tem um sistema interno¹ com espelhos que nos permite ver a cena pelo visor exatamente como a câmera a e decidirmos o que e como queremos captar a cena ou parte dela, fazendo o enquadramento.
Eu nunca tinha chegado perto de uma dessas, tanto que para saber se a Olympus TRIP 35² que foi de meu pai era ou não reflex fui parar numa livraria e, lendo um livro, cujo título não me recordo no momento, descobri que não. A TRIP tem o visor para o lado e é preciso ter algum cuidado para enquadrar a cena, um objeto ou pessoa. Nele há umas marquinhas para nos basearmos, pois a imagem como vemos pelo visor não coincide com a que é vista pela lente, que fica em outra posição

DSCN6406post

Numa câmera reflex o visor fica na parte superior dela, na mesma direção da lente, aliás um pouco acima, voltado para os espelhos de que falei e refletem a imagem que passa pela lente, é essa diferença que torna o fotografar muito mais facilitado. Por exemplo, ao fotografar pessoas com uma TRIP existe o risco de, se mal enquadradas, elas saírem na foto sem as cabeças; numa reflex isso pode acontecer mas só se o fotógrafo quiser, afinal o que se vê através do visor é o que vai ser captado no filme de uma câmera SRL analógica ou no sensor de uma digital DSRL3

Lente
Visor Canon AE-1 PROGRAM_visto de cima_
Visor
Visor Canon AE-1 PROGRAM
Visor com protetor4

Acho que já tinha notado antes, mas o que mais me impressionou, em primeiro lugar, foram os anéis nas lentes das câmeras fotográficas. Na TRIP são três, 

Lente D. Zuiko_40mm

o anel na borda da lente corresponde à ASA do filme, dado sobre o filme que há um tempo considerável passou a ser chamado de ISO5; o anterior, com as figurinhas, tem a ver com as distâncias necessárias para focalizarmos a cena ou um objeto nela, definindo uma área de nitidez  (1 m ao infinito [])6; o bem próximo ao corpo da câmera é o anel das aberturas de diafragma (de f/2.8 a f/22)7.
Numa reflex... bem, deixa eu apresentar a reflex com que fotografo. Trata-se de uma Canon AE-1 PROGRAM, câmera japonesa que começou a ser fabricada em 1981 e com produção interrompida em 1986 e considero mais uma maravilhosa companheira fotográfica com que conto, uma vez que antes já estava com a Olympus TRIP 35, uma bela máquina dos anos 1960, com lente de 40 mm8.
Aqui está 

vintage-canon-ae-1-program-slr-camera1

abaixo os detalhes em sua lente, que é de 50 mm e possui mais anéis:

Lente Canon FD 50 mm

o do meio é fixo e corresponde à profundidade de campo9, medida em metros; o bem próximo ao corpo da câmera é o anel das aberturas de diafragma (de f/2.8 a f/22); o outro das distâncias focais ( 0.60 m ao ).
Em seguida notei a diferença das partes superiores das câmeras. Mal me acostumei com a TRIP10

Olympus TRIP 35_de cima

e, ao ver a Canon,

Canon AE-1 PROGRAM2

fiquei sem entender nada, ou quase isso, e corri procurar um manual na internet, não me sentia com coragem de mexer em todos aqueles botões, alavanca... e felizmente hoje posso dizer que me entendo bem com ela. Foi o manual, mais algumas conversas com Vera [Albuquerque], a orientadora da oficina que fiz no Lasar Segall, e também com Agnes, colega que se tornou amiga, tem uma Canon e me ajudou a saber onde ficava o fotômetro, um elemento essencial para fotografar e de que falo numa outra ocasião.
_______
* É difícil não ceder à tentação de explicar certas noções técnicas sobre as câmeras e o modo como se faz uma fotografia, portanto se não for do interesse nesse tipo de informação o melhor é ignorar as notas, em boa parte delas creio que extrapolei nas expliçações. Na verdade, falar da minha experiência, do contato inicial com o uso das câmeras acaba passando mesmo por assuntos técnicos, eu não sabia praticamente nada sobre o assunto, achava que era só pressionar o disparador, posicionar a câmera e pronto. Não é assim quando se tira a câmera do automático e ela fica nas nossas mãos.

1. Para variar eu vou procurar não ficar falando grego, ou melhor, usando termos muito técnicos porque ficaria chato, cansativo para quem tem alguma curiosidade sobre fotografia mas também não vai acabar perdendo o interesse ou se confundindo. Esse sistema de espelhos se chama pentaprisma, mas basta saber que é formado por espelhos, a gente sabe que servem para refletir e isso é suficiente para entender um pouco. A imagem refletida passa de um espelho ao outro até a vermos pelo visor.
2. O 35 quer dizer que na câmera se usa o filme 35mm. Isso tem explicação mas...
3. Nas câmeras reflex digitais, as DRLS, também há o pentaprisma. Em alguns aspectos elas se parecem com uma reflex analógica, só que as diferenças são várias, a mais visível é a existência da tela de LCD na parte traseira das câmeras digitais, onde se vê a fotografia pronta. Tela que em câmera digital compacta, as mais comuns, servem para enquadrar a cena, como as Cybershot da Sony e outras que não têm visor nenhum e a lente fica deslocada para o lado esquerdo do corpo da câmera

Câmera digital_sem visor
4. Este acessório que chamei aqui de protetor, mas não estou certa do nome, creio, serve para a gente olhar através do visor de modo a facilitar a visão dos pequenos números do fotômetro interno, que fornece indicação da abertura do diafragma da lente depois que determinamos a velocidade de disparo da câmera, ou seja, o tempo durante o qual o diafragma vai ficar aberto para expor o filme, que fica no fundo do corpo da câmera, à luz, à cena que enquadramos. É muito útil quando se está numa posição em que o sol interfere atrapalhando de ver a indicação do fotômetro. Fonte da foto: http://www.mir.com.my/rb/photography/companies/canon/fdresources/SLRs/ae1/index1.htm
5. ISO é aquele número que vem na caixa do filme, ou em câmeras digitais que têm o recurso para escolher o ISO, como os mais comuns: 100, 125, 200, 400. Cada vez que colocamos um filme numa câmera devemos ajustar este anel para o ISO desse filme, pois a câmera fica preparada para ser usada com esse filme específico. Cada filme tem características não só no que diz respeito a ser P&B, colorido, mas também há outras especificações em jogo.
6. Essas distâncias são medidas em metros ou pés (ft). Não comentei sobre foco, pode-se acertar o foco da lente manualmente, que é quando se controla o processo,  até ver se a imagem não está desfocada, quero dizer, pouco ou nada nítida. Já posso adiantar que isso não é um procedimento rígido, na medida em que se pode decidir na cena o que queremos que fique nítido ou não na foto. Veja, na foto,

profundidadedecampo03

o galo aparece desfocado por vontade do fotógrafo, porque lhe interessava nitidez apenas na escultura.
7. Só para dar uma ideia do que estou falando ao me referir a abertura de diafragma, ver a figura

diafragma

Estranhei muito o fato de que quanto maior o número é menor a abertura do diafragma. Há uns cálculos que explicam o que são esses números f, mas o essencial é não esquecer disso, essa informação é importantíssima, porque é pela abertura do diafragma que a luz entra, a gente tem de controlar para obter uma fotografia. Se, por exemplo, há muita luz no ambiente/cena, podemos usar aberturas menores, do contrário vai entrar muita luz e a foto vai ficar muito clara, às vezes praticamente em branco. Este assunto eu simplifico porque existem outras fatores envolvidos na questão das aberturas, da luz, do tempo de exposição etc., está tudo interligado.
8. Acho melhor não explicar muito o que é uma lente de 40 mm ou  50 mm. Essas medidas têm a ver com o ângulo de cobertura da cena pela lente, por exemplo a de 50mm num ângulo de 45º, o que é muito próximo da visão humana, isso em relação ao nosso ângulo de visão, motivo pelo qual ela é chamada de normal. Pode parecer estranho mas a lente de 40 mm num ângulo maior ainda e quanto mais milímetros tem uma lente menor é o ângulo, menor a área vista pela câmera porém maior a aproximação da cena ou objeto a ser fotografado. Coisas que com o tempo fazem todo o sentido.
9. Conforme a escolha que fazemos da abertura de diafragma da lente, podemos ter à nossa frente (e da máquina fotográfica, claro) zonas de maior ou menor nitidez. Uma mesma cena pode ser fotografada a partir de uma mesma distância, focando o mesmo objeto na cena,  mas ora com uma abertura maior, ora com uma menor, por exemplo  f/2.8 e  f/16 (ver nota 7) e vamos obter duas fotos com os mesmos elementos mas com diferentes áreas de nitidez.
Nesta foto 

profundidadedecampo03 

o fotógrafo podia ter privilegiado o galo, deixando a escultura fora de foco como na foto a seguir

profundidadedecampo04  
10. Recorte de fotografia do artigo em busca da câmera obscura de Mario Arruda.

ML_ Eu me arrisquei ao falar sobre câmeras digitais pois não uso e o funcionamento tem lá suas diferenças de que sei muito pouco. É resultante de evolução que se dá o tempo todo. Li que já existem câmeras sem o sistema de espelhos e a variedade de tipos é grande, desde as mais comuns para amadores, as semiprofissionais e as profissionais. Para ser sincera e não dizer que não uso digital, uso a do celular.
Na verdade, fazia um tempo que queria falar um pouco das câmeras que uso e, ao começar a escrever, é que vi como há muito mais a dizer sobre elas e sobre fotografar. Espero ter dado alguma noção do que sejam essas câmeras, seus recursos básicos, sem cometer imprecisões graves. Estou em progresso, estudando, fotografando, aprendendo.