domingo, 14 de novembro de 2010

Comentário de comentário_Retratação


Já disse que levo um tempo considerável, às vezes, até publicar uma postagem, porque procuro ser o mais informativa e o mais escalarecedora possível, buscando textos, fotos, tudo que possa me ajudar nessa minha intenção de encontrar uma verdade sobre aquilo a que me proponho partilhar com quem visita o blog.
Ontem estava alterando alguns marcadores (uns de fotografia), quando, de relance, vi uma postagem com um comentário a mais. Fiz as alterações necessárias e fui verificar o comentário casualmente percebido. 
Desse comentário vou falar em outra postagem, não por menor importância, pois, entre outras boas coisas, me serviu de alerta para uma mudança de comportamento e me pus  imediatamente a abrir a pasta de comentários para ver se havia outros cuja existência não tinha percebido por estarem em postagem mais antigas. [Todos os comentários, todas as visitas me interessam muito, gosto de me comunicar, de dialogar.]
Encontrei mais um.

Demorei um bocado escrevendo a série de postagens A arte de compartilhar a arte(1) sobre o artista plástico Árpád Szénes e, confesso, somente dei os devidos créditos a pouco material que usei para tanto, mas me referi a uma foto de quadro de Szénes retirado de um blog, coloquei um link no nome do autor e fiz observações sobre essa foto provavelmente não corresponder ao original, isso com relação às cores, e fiz lá uma afirmação, uma elocubração a respeito de outra foto ser possivelmente mais próxima do quadro em questão. 
Pois não é.

Fiquei pasma ao ler o comentário feito pelo próprio Rui Morais de Sousa, o autor do blog, e, para minha surpresa, soube que foi ele quem fotografou o quadro.
Ah, sim, meu coração se pôs a bater misturando alegria e dor. Explico. 
Ele menciona o fato de eu ter tirado a foto de seu blog. Isso tem uma gravidade, mesmo eu tendo citado a fonte, não é menos grave quando, em seu blog, se vê a explícita necessidade de pedir autorização a Rui para isso. Afinal, ele é o autor da foto, é um direito seu exigir a autorização. É uma luta grande pelos direitos autorais por que passam artistas de toda arte. 
A referência ao nome do autor na reprodução de uma obra sua é, no mínimo, uma questão de respeito e de reconhecimento a ele. E Rui se propõe a analisar o pedido e dar autorização por escrito. Ele cuida, preza o que faz, é justo que faça isso. 


O quadro cuja fotografia tirou do meu blogue, foi fotografado (por mim) na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva em Lisboa.  

Ao ler a frase no primeiro trecho de seu comentário, parei a leitura, já me julgando processada por ele. Não, acho que não. 
Rui me conta como fez a fotografia.
Que maravilha, esteve diante não só daquela obra mas das obras da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva em Lisboa, Portugal. Visitar esse espaço de arte é um privilégio em si, mas poder fotografar as obras deve ser incrível. Ainda mais com uma das câmeras de filme a que Rui se refere na postagem onde está a fotografia que tirei, e mais outras.

Não preciso dizer da alegria que causou ao me escrever, Rui. Fez com que decidisse com certa tranquilidade fazer essa retratação pública, que eu faria de qualquer forma só que haveria uma tensão maior. 
Você me trouxe o esclarecimento, a informação que faltava naquela minha postagem, e me permite partilhar isso com mais pessoas. É muito bom saber que sua fotografia retrata o quadro. Põe fim a uma inquietação minha. Um incômodo.
A questão de fidelidade às cores, quando se fala em fotografia e se pensa nos meios atuais de captação e reprodução e edição de imagens, para mim é delicada. Não tenho tido contato com fotógrafos que, como você, tenham paixão por arte (desenho, pintura etc.). Levei desenhos meus a fotógrafos que ignoraram, se recusaram a levar em conta as especifidades da fotografia de obras de arte, ocupados em fazer fotografias para documentos (RG, passaporte e outros), sem certos cuidados com iluminação, por exemplo.
Há mesmo livros de arte com fotografias, digamos, equivocadas em relação às cores e até aos materiais e técnicas usadas pelo artista para fazer a obra.


Considerando que os meios de que dispomos para ver as reproduções de imagens de obras de arte, como monitores de computador, devemos reconhecer que apresentam capacidades e limitações tão diversas quanto a de nossos olhos e foi uma sorte minha ter a palavra do fotógrafo sobre a qualidade da imagem. Rui fotografa obras de arte, é profissional(2).
Devia ter me detido na leitura do texto que acompanha as fotos nessa postagem de Rui, pois teria sido talvez motivo para não incluir a foto no meu blog o fato de ter de pedir permissão para reproduzi-la, mas teria encontrado um fotógrafo, um apaixonado por arte e ainda alguém com uma história parecida com a minha em relação à escolha de carreira e do papel do pai nesse momento tão especial da vida. Com a diferença de que ele, felizmente há um bom tempo, vem realizando seu desejo e se diz "a kind of breadless photographer"(3)Não me arrependo de ter feito a postagem, claro que ter me apropriado indevidamente da fotografia de Rui ou as de outras pessoas foi uma falha grande minha, mas meu desejo de falar de Árpád era incontrolável.

Eu peço desculpas a você, Rui.


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1. A série começa na postagem de 14 de março de 2010, na qual faço um certo mistério sobre quem seria o texto. Coloquei um subtítulo de _Preparação justamente por estar sendo elaborada ainda a postagem.
2. Mais informações sobre Rui Morais de Sousa, fotógrafo e editor, estão em seu blog. Na postagem a que recorri pode-se ler um pouco de sua história de vida e seu modo de ver a fotografia, a arte, a vida mesmo.
3. Uma tradução possível: um tipo de fotógrafo sem uma migalha de pão, sem dinheiro. 
Fazer arte, quando eu estava às vésperas de tomar uma decisão sobre a faculdade, era vista como um meio de se tornar um sem-dinheiro, pobre, por isso os pais, o meu, o de Rui, eles nos desaconselhavam a seguir a carreira de artista e muitas vezes conseguiam (temo que ainda o façam) fazer os filhos desistirem ao nos colocar esse medo de ficar na miséria. Eu não lutei contra esse medo naquele momento. 
Já disse, espero ter dito, que admiro muito os que seguem seus sonhos, ainda que eles tomem formas um pouco diferentes no percurso da vida. Rui queria ser artista plástico, hoje é fotógrafo, com câmeras maravilhosas de filme, com essa possibilidade de fotografar obras de arte, enfim, colocou e vem colocando seu sonho no mundo. 

ML_Para que entendam melhor do que falei aqui, é bom ir à minha postagem comentada e ao blog de Rui Morais de Sousa.
Vale a pena visitar seu blog, achei melhor não pegar mais nenhuma foto dele sem sua autorização, lá podemos ver uma de Rui e uma de suas câmeras. 
Estou estudando fotografia e começando a fotografar seriamente e isso faz com que meu respeito  por quem já o faz seja maior.
Foi difícil ler o comentário de Rui, como mencionei na postagem, mas o contato foi rico. 
Ainda vou fazer comentário do primeiro comentário descoberto em outra postagem, o que me levou ao de Rui. Aguardem. 
Continuo sem ter certeza da grafia do nome de Szénes, mas um dia vou saber. Importa, sim, que seu nome e sua obra sejm lembrados. 
Vale guardar na memória que a foto do quadro Vieira da Silva pinta Árpád pintando é do fotógrafo Rui Morais de Sousa. Não vou fazer a correção na postagem onde ainda está a foto com minha observação equivocada, volto à postagem
para colocar o link desta assim que for publicada, quero que as pessoas leiam meu comentário aqui.
Mantive a data de quando comecei a escrever, mas a publicação é de 21 de novembro.

domingo, 7 de novembro de 2010

Recomendo_Fotografia


Ainda não vou falar de minhas experimentações na oficina de fotografia, estou preparando uma postagem para isso. Recomendo quem puder ir ver as fotografias de Alline Nakamura expostas em Suzano (SP) como uma artista selecionada no


com fotos da série Juninas, entre as quais está uma das minhas favoritas


porque também com esses vermelhos, além de bonita, com a luz entrando.

Conheci Alline porque, a partir do momento em que, durante  um workshop de gestão cultural(1) que ambas fazíamos, começamos a trocar e-mails. Acho que eu até percebi mas ela não e um dia disse que tentara descobrir quem era eu em sala de aula. 
Para ser breve, ela fazia o mesmo workshop em Atibaia e eu, em Campinas e com o mesmo orientador, que evidentemente mandava textos para todos. Percebi algo desse tipo por nunca ter ouvido o nome dela, e, ao saber que acontecia em outras cidades, podia estar havendo o engano.  
Internet tem dessas coisas, considero isso um feliz acontecimento.
Trocamos mensagens, endereços de blogs, nos visitamos assim, por enquanto.
Outra foto de Alline que aprecio é da série (Land)scapes


pelas cores, as texturas e o enquadramento.

Fotografia, agora que estou mais em contato com o fazer, é arte, sempre foi. Não sei mesmo por que razão houve e talvez ainda haja quem pense o contrário, que pintura é que é arte. A gente, quando não sabe como é feita, acredita piamente que se trata de uma mera cópia da realidade e não é isso. E não me refiro somente às fotos de câmeras digitais, toda foto é resultado de tantos fatores ligados aos materiais (filmes e papéis para as cópias, antes tem de pensar na parte química de reveladores, interruptores, fixadores, o banho final etc.) e não se pode esquecer das câmeras. 
Sim, cada uma com suas características e possibilidades elimitações, sejam de filme ou digitais ou de papel fotográfico, essas feitas com caixas de papelão ou de madeira ou com latas de leite, de que falo em outra ocasião, mas que se chamam câmeras de buraco de agulha. 
E nossos olhos, como participam nisso? 
Cada pessoa vê de um modo diferente, são diferenças maiores ou menores, não fosse desse jeito seria mais complicado, e às vezes é muito complicado, basta lembrarmos de quem é daltônico(2), que identifica as cores de um jeito muito peculiar, e quem é míope, como eu, com minha visão mediada por uma lente de óculos. 
Os monitores de computador, eles também tem suas capacidades e limitações de reprodução de imagem. Até o fato de sermos ou não expostos à fotografia, termos aprendido a vê-las, lê-las, tem influência no modo como nos relacionamos com fotografia. 
Eu me desviando do motivo de escrever a postagem...

Alline teve suas fotos escolhidas entre as obras de um monte de artistas inscritos no Salão. Ser escolhido numa situação dessas é muito importante para o artista, significa reconhecimento da qualidade de sua obra, do empenho, da capacidade criativa desse artista, projeta seu nome no mundo das artes, faz com que mais pessoas tenham acesso ao que ele faz. 
Pode-se ler o depoimento de Alline sobre o Salão, na página do site Atibaia Cultural, e notar como é sua vida de fotógrafa e sua postura em relação à arte revelada na frase

Ganhar alguma premiação é raro e não deve ser, a meu ver, 
a primeira motivação para a realização de um trabalho artístico.(3)

Não preciso dizer da alegria com que recebi essa notícia, que me leva a escrever e recomendar que vejam o que ela expõe no Salão e nos links que espalhei pelo texto.
A exposição abriu ao público no dia 05 passado e vai até 10 de dezembro deste ano, no seguinte endereço

Centro de Educação e Cultura Francisco Carlos Moriconi
Rua Benjamin Constant, 682
Centro
Suzano (SP)
Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 4747-4180.



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1. Este workshop foi muito rico, conheci pessoas muito boas e talentosas. Não me serviu ainda para fazer um projeto meu, mas em termos humanos foi demais. Além de Alline, conheci Gabriel, o músico da postagem anterior, e o poeta Geraldo Maia de Os Poetizadores, grupo que divulga poesia durante apresentações toda quinta-feira às 16h na praça Carlos Gomes aqui em Campinas (SP). Logo, logo vou fazer cursos mais pelas pessoas que tenho oportunidade de conhecer do que pelo assunto em si, embora o assunto certamente seja um elemento de aproximação a priori.
2. Daltonismo é "uma perturbação da percepção visual caracterizada pela incapacidade de diferenciar todas ou algumas cores, manifestando-se muitas vezes pela dificuldade em distinguir o verde do vermelho" (ver mais sobre o assunto no Wikipedia).
3. Alline foi selecionada para a exposição e não premiada.

ML_Tem mais um link para fotos de Alline, este da série Chuva
Eu espero que todos os links funcionem para que possam ver mais fotos dela nos álbuns. Digo isso porque tive alguns contratempos para achar links que levem ao Facebook, que tem áreas restritas a visitas de quem é cadastrado nele. Testei todos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Recomendo_Música






Vi mensagem, agora há pouco, com essa ótima notícia sobre a apresentação do Espinho de Limoeiro, recomendada pela OC Hilda Hilst*, e resolvi avisar. 
Eles fazem uma música das melhores, música instrumental brasileira. 
Tive o privilégio de conhecer Gabriel Sebrian num workshop de Gestão Cultural, na mesma OC Hilda, e participar do seu grupo de discussão e elaboração de um projeto. Aliás, quando o ouvi falando sobre sua motivação para participar do workshop e soube que fazia música instrumental, não tive dúvidas em entrar para seu grupo.
Adoro música desse tipo, é companhia frequente em várias situações na minha vida e especialmente quando desenho.
Gabriel é o guitarrista da banda e uma das pessoas mais sensíveis e generosas que conheço, pois mesmo (pre)ocupado com o projeto da banda, arranjava tempo para dar esclarecimentos sobre gravação de música etc., tornando possível minha participação, eu, uma pessoa que apenas ama música mas sem conhecimento na área. 
Dá para encontrar mais informações sobre a banda no blog Espinho de Limoeiro
Que fique claro que recomendo a apresentação do Espinho por gostar muito do som que eles fazem. A banda  tem seus compositores, formada por músicos que apreciam outros músicos como o grande Hermeto Pascoal,  para citar um, são muitos.
Outro detalhe importante que vejo neles é o fato de serem jovens músicos, que estudaram música e continuam estudando, que se voltaram para a música instrumental brasileira, jazzística, sim, e sim com elementos da música popular do País, como o baião.
Só para lembrar, no próximo dia 28 de outubro, uma quinta-feira, às 20h, o Espinho de Limoeiro vai estar tocando no endereço

Rua dos Alecrins, 301
Cambuí, Campinas (SP)

Vale a pena ouvi-los, acreditem!


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* Sobre a OC Hilda Hilst, quero dizer que já havia falado um pouco numa postagem e que é necessário alterar o e-mail dado nessa ocasião e dar o novo endereço na internet, ou melhor, acessem a página
E para quem mora em outras cidades do estado de São Paulo, onde há várias dessas oficinas culturais (OCs), visitem o site das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo, pois pode haver uma na sua cidade

sábado, 16 de outubro de 2010

Eu, pintura azul


Cada vez que alguém se refere a mim como pintora reajo com uma fala tradicional de sou melhor desenhista que pintora, ou ainda um não, não sou pintora.
Já fiz e faço sempre uma pintura lá que outra, ou paro no meio. Também termino umas e vejo defeitos a ponto de raramente mostrar. 
Gosto muito dos bastões, seja giz pastel oleoso, antes o pastel seco, os de óleo, eles são meus aliados principais há anos. Acredito que seja uma questão de personalidade, não simpatizo muito com pincel, ai aquelas cerdas... mas busco alternativas como os pincéis de silicone, 



Colour Shapers da Forsline&Starr (1) 

por serem mais firmes, eles me deixam à vontade para pintar sem o estranhamento do pincel comum.
Tenho só dois desses ingleses e mais alguns da Keramik e, em alguns momentos, procuro usar os de cerdas também, tudo pela arte!
Não foi para falar de pincel que comecei a escrever mas de uma pintura minha, que não me sai do pensamento por mais tempo que fique sem vê-la

Puerta blue, 1991
(ass. M.N. no verso)

É uma boa pintura? Sabe que não faço ideia, simplesmente gosto. Não nego, vejo algumas coisas que não faria hoje, como usar um rosa tão forte. E olha que não me refiro diretamente à imagem reproduzida aqui, que passou pela digitalização no escâner e depois ainda mexi um pouco no editor de imagem por ter ficado muito escura onde há o azul e o verde e "acesa" no rosa e amarelo; a original tem uma intensidade diferente, mais suave. Poderia ficar alterando sem parar, ou parar somente quando ficasse mais fiel à pintura original, no entanto, para ser sincera, a reprodução da pintura ou de outras obras minhas me interessa por suas características próprias e ainda quero observar mais os efeitos possíveis da edição no computador.
Puerta blue foi feita em 1991. Pintei com guache, usando, eu acho, espátula e pincel. Nunca usei tanto azul assim na vida, é uma cor que aprecio mas tenho tido dificuldade de encontrar um tom que me agrade. Nos últimos tempos ando atrás de azul. 
Cada material tem suas características e me permite realizar imagens específicas. O guache é à base de água, manuseio bem essa tinta, e, não só por isso, mas bateu uma nostalgia de pintura ao rever Puerta. É, voltar a pensar em pintura.
Dá para notar que escrevi algo entre parênteses logo abaixo do título. Trata-se de uma informação sobre como assinava o que criava na época. Eu usava o sobrenome de meu pai (Nunes). Mais uma curiosidade é que já mudei de nome artístico algumas vezes. Agora vou parar com isso, desse jeito dificulto minha identificação como artista. Assinei Marga Bihar(2), quando fiz uns desenhos em 2000.

Como já disse em uma postagem anterior, levo um tempo escrevendo, o que me faz alterar o texto, inserir novas imagens ou deletá-las. Este comecei no dia 25 de setembro às 16h24. Imagina só o tempo que faz.
Nesta semana estava lidando num desenho, onde utilizei o guache como base, então de repente me deu vontade de falar do guache como material em que vejo importância, e não só eu.

Para não esquecer meu pensamento, anotei o seguinte texto numa folha de papel:


                 O guache é uma tinta maravilhosa por ser à base de água, 
                 em tempos ecológicos isso é bem vindo, com cores e efeitos belos. 
                 Aqui [no Brasil] parece relegada ao uso infantil. Enquanto isso as 
                 tintas guache da Talens secam em seus vidros nos expositores de 
                 lojas como a Casa do Artista e outras tantas.(3)

E lá venho eu com Henri Matisse.
Matisse é natural que eu pense imediatamente nele quando preciso falar nessa tinta. Não conheço melhor exemplo ou, pelo menos, para mim é dos melhores exemplos de uso de guache por artista. 
Alguém já viu esta obra?


Nu bleu II,1952
Papel guachado, recortado e colado sobre tela
116,2 X 88,9 cm

Papel guachado. Outra coisa que anotei foi sobre essas obras dele serem em papéis guachados e lembrar que este termo li há muitos anos nos Escritos e reflexões sobre arte(4), na edição portuguesa do livro que contém escritos do próprio Matisse, entrevistas e conversas. Gosto da palavra guachado, em lugar de dizer pintado com guache. 
Assistentes do pintor "guachavam" os papéis(5) e ele os recortava com tesoura



Eu sinceramente não pensava em trazer Matisse para essa conversa, no entanto fico satisfeita de demorar tanto a escrever que deu tempo de ter a ideia. Claro que não vou me estender falando nele e nesses seus recortes, mas chamo atenção para o tamanho deles, basta ver as medidas, acho que não todos mas há os de grandes dimensões. Os recortes ainda serviram de "esboço" para vitrais, foram serigrafados, reproduzidos em posters etc. 
É com ele que vou encerrar a postagem, não sem antes dizer que faço menos pinturas do que desenhos mas é bom acrescentar que faço pintura também e gosto.

La tristesse du roi(6)
292 X 386 cm



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1. Esses pincéis apresentam-se em vários tamanhos,  pontas com formatos diferentes e de silicone com diferentes durezas, sendo mais comum encontrar os de silicone cinza, de dureza média. Seus usos também são variados. Podem ser encontrados em lojas de materiais de arte; cito, para variar, a Casa do Artista, a loja virtual da Companhia do Papel, cuja loja no mundo real fica em Londrina (PR). Há outras marcas desse tipo de pincel e outras lojas onde podem ser adquiridos; estou para visitar a Fruto de Arte, só que para procurar outros materiais, mas sei que lá tem uns pincéis de silicone com preços bastante mais acessíveis. Veja as trinchas da Fruto,



2. Bihar é a segunda maior cidade da Índia, bem, era em 2000, não sei se continua sendo. Gosto muito de roupas e acessórios indianos e de outras tantas maravilhas daquele país.
3. Isto foi escrito no dia 14 de outubro. Eu me refiro ao guache da Talens por crer que é dos melhores e por, de fato, ver a tinta abandonada nos vidros, o que faz com que os lojistas os coloquem em promoções com a intenção de se livrarem do produto encalhado. Isso significa  muitas vezes que não voltarão a ser trazidos. De modo algum se trata de material barato, mas penso que se mais pessoas comprassem o valor diminuiria. Posso estar enganada.
4. Recentemente a editora CosacNaify lançou a primeira tradução brasileira do livro, Matisse - Escritos e relexões sobre arte. A observação mais corrente sobre esse lançamento refere-se à inclusão de imagens das obras dele, o que não foi feito na edição portuguesa, que está esgostada. Gostei muito de ler o livro, não li todo mas há nele textos que sei  da necessidade de reler.
5. Ver mais informações no site http://www.henri-matisse.net/cut_outs.html, de onde eu tirei a foto de Matisse em ação.  
Ele teve câncer no intestino, provalvelmente ficou impossibilitado de pintar, pois ao pintar se faz esforço físico e os médicos acabam proibindo pintores, e obviamente escultores, de fazerem aquilo que lhes é mais importante. Matisse deve ter feito arte desse jeito para dar continuidade a sua criação. Felizmente desenvolveu essa técnica e realizou obras das mais bonitas e significativas. Aliás, elas são muito especiais dentro do conjunto de tudo o que fez antes e depois. Um criativo incansável.
6. Esta  obra está no Centre Pompidou e no site podem-se ler informações sobre ela e outras obras do pintor, basta clicar no título.
ML_ Normalmente eu publicaria agora uma postagem sobre artista favorito meu, mas esse assunto de não ser pintora veio à baila quando revi Puerta azul. Na verdade surgiu antes em conversa com Agnes, fazemos a oficina de fotografia no Lasar Segall. Eu me questionei na volta a Campinas sobre a postura que tenho diante da minha pintura, senti necessidade de rever isso. 
É o que faço aqui neste texto, mesmo com a invasão gostosa da arte de Matisse. Ou por isso mesmo. A presença de um pintor neste texto é até sintomática de minha reflexão.
Ainda sobre Matisse. Estou contente por ter encontrado a foto colorida dele recortando seus papéis. Uma beleza, o chão coberto coberto de cores faz jus ao mestre colorista. Tinha visto a foto apenas em preto e branco.


domingo, 19 de setembro de 2010

Arte minha


Já estava na hora de voltar a falar um pouco do que faço, não é?
Também com tanta agitação por conta da entrada da fotografia em minha vida e outros eventos, acabei parando de desenhar.
Fiz esboços, sim, algumas imagens mas não fiquei pensando na ampliação nem nas cores, menos ainda nos gestos necessários para realizá-las e quando isso seria possível.
Ainda fui perder um esboço que fiz num pequeno papel e que inexplicavelmente desapareceu da mesa do computador. Agora me resta usar a memória para recuperá-lo.
Não estou chateada, isso vai me permitir um exercício a que não estou habituada, o de me lembrar, refazer uma imagem com todos os riscos que isso implica. Um exercício que já começou assim que dei falta.
Sei sua forma básica,


mas não estou acertando um detalhe que não sei se seria mesmo importante lembrar.
O que quero dizer é que ele vai ser transformado. Está em plena transformação. Até a dimensão antes prevista para ser numa folha de papel grande (~50x70 cm) já vai sendo abandonada, porque outro dia, ao acordar, tive uma espécie de visualização da imagem num papel menor, e mais: não cheio de cores e sim um desenho com linhas bem definidas e apenas o uso de cinza e de amarelo brilhante claro. Essas ideias podem ser alteradas durante o processo, mas ao pensar nelas eu considero bastante boas.
Quando fico um certo tempo sem desenhar a volta não é exatamente fácil. Normalmente paro quando estou em algum processo novo que teria um desenvolvimento diferente se não fosse interrompido; ao voltar a desenhar, já não o retomo ou o olhar se altera nesse meio tempo.
As interrupções, é preciso que eu diga, não são por vontade minha ou alguma necessidade do desenho, às vezes faltam materiais nas lojas, outras vezes são fatores externos, como os afazeres do dia a dia. Não nego que haja épocas de seca criativa, mas nos últimos tempos não era isso.
Como parte da vontade de lidar com a tal forma, fiz pequenas monotipias sobre papel(1)

T1
  
T2

T3 

A primeira dá para notar que não deu muito certo, a segunda está boa e a terceira só ficou  assim porque retoquei com pincel, tinha ficado ruim.
Todas as monotipias de que estou falando aqui foram feitas com o mesmo molde vazado(2). As três monotipias acima fiz com o papel seco e a tinta úmida; para a quarta, de que pretendo falar ainda, o papel foi umedecido. 
Fiz intervenções nessas monotipias para "salvar", embora seja bem comum fazer isso com a função de construir uma imagem. Já vi muitos que desenham sobre a monotipia, que colorem com giz pastel seco ou oleoso, com tinta etc. Retrabalhar a imagem obtida com a técnica da monotipia ou qualquer outra é um procedimento da arte 


Mistery of Georgia Clay, Sharon Clabo(3)

e nada novo, basta ver a obra de Edgar Degas

 L'Étoile ou Danseuse sur scène, 1876
Pastel sobre monotipia

Para a quarta monotipia, resolvi umedecer o papel, 


T4

então começou a se soltar o finíssimo papel japonês. Corri para evitar a soltura completa dele do outro papel e me pus a retirar o excesso de umidade com mais cuidado do que o habitual. A monotipia não ficou como esperava porque a tinta estava úmida também(4). As bordas indefinidas eu não gostei, pode até ser um efeito interessante em outro momento. De qualquer modo, foi uma aprendizagem não acertar, agora sei como conseguir bordas desse tipo.
Pode parecer estranho eu falar do que não deu certo, mas acho importante contar que não cai do céu quando dá certo e a imagem fica boa, bonita. Em arte também a gente erra, acerta, analisa tanto o erro quanto o acerto, faz reflexão sobre o resultado de todo o procedimento, isso vale para a vida por que não valeria para a arte?
Outra coisa que acontece é o saber incorporar o acaso. Às vezes olho para um desenho e penso que o destruí, por alguma cor que ficou deslocada, uma linha nada solidária com as demais. O giz pastel oleoso, que eu saiba,  não admite de bom grado o uso de borracha para apagar o que não ficou bom e me desdobro para encontrar um modo de tornar o acaso parte do desenho sempre que possível.
Considero que falar dos não acertos seja uma oportunidade para dizer que fazer arte tem suas complexidades como tantas atividades realizadas pelas pessoas. Quero abalar a lenda do fazer artístico como lazer, terapia, como só alegria. Há uma luta, há um estudo, seja formal, em cursos superiores ou não, ou este do dia a dia do fazer mesmo, das leituras de livros, revistas, artigos, das idas aos museus, galerias, do olhar atento para as próprias obras; alguns escrevemos também, outros têm de falar o que fazem, sentem, seus projetos; pensar suas exposições, se abrir para novas imagens, técnicas, materiais, enfim, é uma série de elementos com que lidam esses artistas. 
Eu sempre lamento a banalização da vida, da atividade de artista plástico. Ninguém diz que todo mundo pode ser médico, ser ator, dentista, mas existe a afirmação de que todo mundo pode fazer arte e há artista que toma isso como verdade para não parecer arrogante, metido.
Não é assim. Creio que algumas pessoas são talhadas para fazer isso ou aquilo e nem por isso se sentem melhores do que os outros; não sei por que motivo artistas plásticos teriam obrigatoriamente de ter o comportamento do nariz empinado ou em que artistas ele é observado para que seja estendido a todos.
Cada atividade tem seus prazeres e dificuldades; fazer arte, fazer monotipia pode divertir e pode dar um bocado de trabalho.
Persisto.


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1. Informações sobre o material usado: papel japonês colado em papel Aquarela da Canson (300g/m²) e  tinta à base de água para xilogravura e linoleogravura da Speedball. O papel pode ser comprado em várias lojas, em Campinas (SP), comprei o bloco na Casa da Arte. A tinta, creio, só em lojas de São Paulo, comprei na Casa do Artista da Alameda Itu. Há a possibildade de comprar pela internet também. 
2. Tenho desenhos feitos com base em molde como os da postagem Vermelhos. Moldes são um recurso que  me permite fazer variações de uma forma que me atrai, gosto bastante disso.
3. Esta é uma monotipia alterada, tem colagem, uso de tinta acrílica e giz pastel (não diz se pastel seco ou oleoso) e está à venda no site Etsy.
4. Pode-se fazer monotipia com o papel umedecido e a imagem feita com tinta à base de água seca sobre o suporte, placa de vidro, acetato etc.
O papel é deixado em um recipiente com água por algum tempo (minutos) e o excesso de umidade dele depois é retirado colocando-se o papel entre folhas de jornal ou no meio de uma toalha ou pano seco. A gente deve passar a mão de leve sobre as folhas de jornal ou a toalha para ajudar nessa enxugada. Tem de evitar secar demais. O procedimento para imprimir é o mesmo que descrevi em Monotipia | Monotype |.... Com a prática tudo isso vai ficando mais fácil ou então nos acostumamos à lida e suas complexidades. 

ML_ Enquanto escrevia a postagem, encontrei o esboço sumido. Agora ele vai ter de esperar, quem mandou sumir?
Quando faço uma postagem demoro muitas vezes escrevendo, procurando ou ajeitando as imagens que vou inserir, até pesquisando informações, endereços para os links, dá tempo de acontecer um monte de coisas. Esta postagem começou a ser escrita no dia 04 deste mês às 17h44 e na quarta passada sofreu um acidente e teve uns 80% do seu corpo deletado. Esta é uma postagem reconstituída.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Recomendo_ Cerâmica


Gosto de alternar uma postagem sobre minha arte com uma sobre a arte de outra pessoa, mas acabo de verificar que vai haver eventos ligados à cerâmica na cidade e não resisto avisar quem visita o blog.*
O convite é este



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* Exposição é bom avisar quando ainda vai abrir e não quando já passou ou muito em cima da hora sem que se possa programar a ida. Por exemplo, a exposição de que falo na postagem anterior a esta lamentavelmente já foi encerrada. Falha minha!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mostra


Em julho estive em São Paulo e aproveitei que era uma terça-feira, dia de entrada gratuita, para ir ao MASP, esse prédio que não me canso de visitar e admirar seus pilares vermelhos e o imenso vão livre



MASP, Avenida Paulista

Visitei a mostra  noite, no quarto de cima, o cruzeiro do sul, lat. sul 23º32'36", long.w.gr. 46º37'59", 1973 - 2010: revisão de Evandro Carlos Jardim. 
Ele é um mestre da gravura, não por ter feito mestrado em alguma instituição, título que não sei se ele tem em seu currículo. Evandro é mestre no sentido de pessoa que conhece uma arte com profundidade e a realiza com talento e sabedoria; é mestre também no sentido de pessoa que transmite seu conhecimento ao outro com qualidade.
Fui atrás de suas gravuras, há uma delas por que tenho paixão. Esta



E pude ver outras tantas, na verdade nunca tinha visto uma quantidade tão grande de gravuras de Evandro e isso foi importante demais para mim. Eu me aproximava um bocado  das molduras, ávida por perceber cada detalhe, que em gravura com matriz de metal são muitos. Tentava saber se ainda reconhecia as técnicas, os efeitos criados com instrumentos ou ácidos. 
No piso de museus normalmente há uma linha amarela delimitando a máxima distância a que devemos nos aproximar de uma obra, no MASP não tem, o que me permitiu esse chegar perto com que me deliciei. 
Evandro faz pequenos objetos em madeira e outros materiais, desenhos e fotos também, mas o que tomou conta de mim, além das gravuras, foram suas pinturas em têmpera(1) sobre tela ou madeira,





Descobri o Evandro pintor. Fiquei um tempão diante delas, gostando. Não sabia se gostaria, conhecia como gravador e não havia certeza de o pintor ser tão bom quanto. Ele é, que alegria saber!

Sinto uma alegria sem descrição possível quando vou a uma exposição e posso gostar do que vejo. Acho difícil falar de obras de que não gostei, bem pior é se o artista for conhecido meu... ai, me vem aquele sem jeito de dizer a verdade, aliás, de que verdade estou falando? Da minha. Não sei até que ponto valem a pena certas sinceridades, na arte, então, entra muito a questão do gosto e outras questões até discutíveis, como quando se levam mais a sério conceitos do que mesmo a própria qualidade do que se denomina obra de arte, assunto para outra postagem.

Acho que minha gravura favorita dele eu já havia visto pessoalmente ou então foi Jaraguá

 
Ele retoma o tema do Pico do Jaraguá na pintura, isso eu considero uma bela atitude porque... o melhor é ver



São dois olhares para o mesmo pico, será o mesmo de fato?

Saí do MASP com os olhos e coração lotados de imagens de um artista maior, de um artista que admiro muito

Evandro em seu ateliê

Já estava no vão, iria embora dali, quando vi uma garota conversando com umas pessoas e olhei para o que ela carregava. Eram Ocas, exemplares de uma revista de que ouvira falar havia muitos anos mas, como é vendida apenas em São Paulo e em alguns pontos específicos da cidade (e cadê que eu ia lá!), nunca tinha comprado. Fui me aproximando e logo contando essa história de querer a revista...  
Ana, a garota, acabou me ajudando a lembrar de alguns fatos enquanto eu tentava dizer como soube da revista e ela contava a própria situação e os benefícios de trabalhar vendendo a Ocas. 
A revista é feita pela Organização Civil de Ação Social - OCAS(2), instituição sem fins lucrativos, com a participação de pessoas como Fernando Bonassi, escritor, roteirista, cineasta etc., que escreve na revista nº 58 que comprei. A venda da Ocas tem como objetivo melhorar a vida de pessoas em situação de rua. Elas vendem a revista e o dinheiro reverte(3) para eles e assim podem deixar a rua e pagar ao menos uma pensão, um canto, vão ganhando dignidade e alguns começam até a realizar sonhos, ou antes disso, (re)começam a sonhar diante da realização dessas vendas, provavelmente também com a melhora no contato com o outro, coisa difícil quando se está na rua, sem as condições mínimas de higiene e.
Ana, se me lembro direito, está fazendo cinema na USP. É uma jovem falante, inteligente, 
racíonio rápido, atenta ao que se fala com ela. Bonito ouvi-la e gostoso conversar com ela. Aprendi umas coisas sobre gente dentro e fora do MASP. 
Se for ao MASP ou nas imediações e quiser a Ocas, não só por se tratar de uma causa solidária, porque a revista tem textos muito bons mesmo, Ana disse que está sempre por ali ou tem outra pessoa vendendo a revista. Custa R$ 3,00 cada exemplar, a Ocas mais recente é esta, com o mais que cartunista Paulo Caruso





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1. Têmpera é uma técnica de pintura em que o pigmento (as cores) se torna tinta pela adição de aglutinantes. As têmperas mais comuns são a têmpera a óleo e a têmpera a ovo. Não havia informações sobre com qual têmpera Evandro pintou seus quadros, uma falha dos organizadores da mostra. O pintor Alfredo Volpi usava muito a têmpera a ovo em suas belas



As reproduções das têmperas de Evandro têm como fonte a Enciclopédia Itaú Cultural Artes Visuais, onde mais obras dele podem ser vistas e uma porção de informações e até um vídeo com ele falando de sua arte.
2. Há o  endereço do site da OCAS que é www.ocas.org.br, mas este link é para o blog da revista. Não consegui acessar o site, que vale a pena ser visitado porque nele há mais informações sobre o que fazem, aliás, lá acontecem mais atividades além da revista. 3. No blog soube que a revista pode ser comprada de outros modos e até mesmo assinada, veja .
Em algum  lugar no site ou no blog deve haver uma informação mais correta sobre a venda da revista por essas pessoas em situação de rua, não me recordo se recebem todo o valor que se paga pela revista ou uma parte.


ML: Acabo de escrever isso sobre a revista e sinto que, embora tendo começado o blog voltada unicamente à ideia de falar sobre arte, não pude deixar de contar o que vivi naquele dia de visita à exposição. Fui além dos quadros.
E creio que falei por inspiração vinda de duas pessoas. Uma delas é Andrea com seu blog, em que fala de dor, aponta injustiças sociais, de solidariedade, de respeito ao próximo, respeito que ela pratica, e muito mais. A outra pessoa é Pedro, com quem converso sobre a arte e a vida e que tem um blog sobre sexualidade, mas que aqui me inspirou por já ter feito belos trabalhos de valorização de pessoas, em especial numa comunidade de Campinas (SP). 

Não falar da Ocas teria sido... Ah, me lembrei de Laura, devo isso a ela também.
Teria sido péssima ideia não falar da Ocas, tinha de partilhar sua existência com mais pessoas e agradecer a Ana e a meus inspiradores em assuntos de humanidade.

sábado, 21 de agosto de 2010

Laura Martin_conversa aberta


Eu não sabia de sua existência até a manhã do dia 13, mas, graças a um e-mail da Oficina Cultural Hilda Hilst(1), soube que Laura Martin estaria na cidade no ateliê aberto, um espaço dedicado às artes, para uma conversa aberta. 
Li o convite e nem me passou pela cabeça não ir, marquei o compromisso comigo mesma de ir pelo que estava escrito nele e por meu interesse, agora mais do que explícito, em fotografia. Laura é fotógrafa e gosto de saber o que o próprio artista tem a dizer sobre o que pensa, faz, sente


Laura é francesa, acho que a pronúncia de seu nome deve ser algo como 'lohá martan', é artista plástica também. Foi emocionante ouvi-la. Não que entendesse tudo o que dizia pois meu francês está em desuso há décadas e só consigo ler com dicionário à mão, mas tinha uma tradutora. Poucas vezes na vida eu me senti tão desejante de saber uma língua para ouvir a pessoa sem a angústia pelo não entendimento adequado.
Eu olhava para seus olhos e o rosto expressivo e via as fotos projetadas na parede, tudo isso me fazia perceber a beleza e a importância do que ela faz em comunidades pelo mundo afora e dentro da França mesmo. Pessoas em situações social e economicamente desiguais infelizmente não é algo exclusivo de países como o Brasil. 
Laura tem um site onde podemos acompanhar seus projetos e não me sinto talhada para falar muito sobre o que ela faz. Ela faz, por exemplo, algo muito bonito e carregado de significado, que é dourar partes do corpo de algumas pessoas

Laura dourando os pés de um homem 
que transporta pessoas num rickshaw (riquexó) na Índia


Laura dourando a mão de uma pessoa em São Paulo, 2010

Talvez seja um risco a correr tentando contar um pouco sobre isso, mas o que entendi é que a atitude tem a ver com valorizar o ser humano, em especial aquele que normalmente não tem seu valor reconhecido, e tudo começa com Laura conversando com a pessoa e respeitando sua vontade ou não de participar do que ela está propondo, no caso a douração, que é feita com uma mistura de óleo e pó dourado e é aplicada nos pés, mãos ou orelhas.
Laura tem esse modo até mesmo humilde de se aproximar das pessoas e não creio que seja  para conseguir algo delas e fotografar ou ser fotografada junto dessas pessoas, ficar famosa; ela tem esse caráter, esse desejo de tocar o outro. 
Senti isso quando ela se aproximou de mim após apresentar o que fez em alguns lugares, como em São Paulo (ver artigo sobre seu encontro com moradores de rua em Osasco, SP) e responder duas ou três perguntas feitas a ela. 
Laura me ouviu falar num inglês em que eu me confundia com as palavras, com as concordâncias verbais e usando "draws" em vez de drawings quando fui responder que faço desenhos, entre outros equívocos linguísticos de minha parte. Eu fiquei tão surpresa com sua atitude, isso me deixou certamente tensa; fui lá para ouvi-la e de repente fui ouvida.
Normalmente vou a esse tipo de evento e restrinjo à participação como ouvinte e, dessa vez, tive vontade de perguntar e o fiz. Quis saber como Laura começou a trabalhar com fotografia, com performance (a douração é vista como performance, embora eu veja muito de ritual nela), com essas idas aos lugares e confessei meu encanto com a maneira como ela busca meios de aproximação, já que Laura nem sempre tem as portas abertas aos seus projetos, que também acabam sendo alterados durante a abordagem às pessoas, como ela havia descrito o caso da cidade de Goxwiller, na França, onde foi preciso ter muita criatividade para abrir um espaço de contato e conhecer as pessoas do lugar(2)
Meu interesse era mesmo saber o que a moveu nessa direção. Laura disse que era ligada à música, foi aos 20 anos, grávida de sua filha, que passou a visitar instituições para idosos(3)... ela não descreveu como se deu isso, embora dê para fazer uma ligação com o que faz hoje. 
Soube que sua mãe tem um papel fundamental em sua vida de artista por ser uma pessoa muito esclarecida quanto ao que acontece às pessoas, creio que sobre as injustiças, as diferenças sociais. Ela também mencionou o fato de ser descente de imigrantes suíços e que, portanto, não é à toa que se volta para a questão dos imigrantes, de pessoas discriminadas etc.
Laura fez um trabalho com os funcionários de um museu de arte em São Paulo, acho que foi no Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC USP. É o que ela chama de "alfabeto de palavras", que é um dar corpo às palavras que são essenciais para cada pessoa, como "amor", "respeito", "amizade" e outras tantas. As palavras foram escritas sobre papel, tiras de papel e fixadas nos rodapés no interior do museu. 
Não tenho fotos disso, mas na Alemanha ficou assim, uma floresta de palavras

Forêt de paroles, 2000
 
Paro por aqui, o que Laura faz é muito maior do que eu posso dizer até por não ter lido sobre seus projetos passados e o que sei sobre o que ela fez em São Paulo foi basicamente o que ouvi na conversa aberta naquele sábado e não está sequer em seu site ainda. 
Além disso, ela está na estrada pelo mundo há uns 10 anos, não daria para resumir numa simples postagem.
Para mim, foi uma experiência marcante, tinha uma expectativa que foi superada e muito.
Merci, Laura!



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1. Na OC Hilda Hilst eu participei de um workshop de gestão cultural no semestre passado. Nesse espaço cultural tem, semestralmente, uma porção de oficinas em várias áreas (artes visuais, cinema, literatura, teatro, cultura geral etc.) e fica à rua Ferreira Penteado, 1203, Cambuí, Campinas/SP, com o telefones (19) 3294-2212 / 3236-0046 e o e-mail campinas@assaoc.org.br
O funcionamento é de segunda a sexta-feira das 9h às 17h. Tudo lá é gratuito.

Há OCs em várias cidades do estado de São Paulo, vale ficar de olho no site da Associação dos Amigos das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo para conferir a programação de cada OC. Além das oficinas, há outros eventos nesses espaços e se cadastrando a gente recebe informações de eventos que acontecem fora das OCs também. 
2. Estava pensando, enquanto a ouvia, que eu não teria esse jogo de cintura dela, ou sua coragem de enfrentar tantas mudanças, por isso também foi crescendo uma admiração por Laura. 
3. Isso pode ser um pouco diferente do que estou contando porque escrevo de memória, e a resposta dela foi mediada por tradutora...


ML: Meu desejo é não ter dado informações equivocadas sobre Laura Martin, mas recomendo que se visite o site dela, há a versão em francês e a outra em inglês. As fotos, estas podem ser lidas em qualquer língua. 
Sobre o ateliê aberto, adorei a iniciativa de trazerem Laura à cidade!  Devo prestar mais atenção ao que acontece por lá!