terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Esboços

 

Esboços para decidir as cores do desenho.
Tudo por causa do vermelho. Há anos esperava encontrar um vermelho adequado para dar vazão a um desejo de vermelho. 
Não é bem esses dos esboços que mostro aqui. É o Red Deep do giz pastel oleoso da Sennelier.
Vou fazer mais esboços, não estou satisfeita com estes dois. 
Estou aceitando o desafio de ver onde colocar meu vermelho. Sem ele não vou ficar.
É uma decisão inabalável.
Anoto informações para mim mesma. 
Isso tudo pode ser mudado no momento de colocar no papel definitivo, mas resolvi fazer esse exercício prévio para aquecer as ideias. Este ano quero que seja de muitos desenhos. 
O desenho acima é antigo, está esperando cor faz tempo.
Eu o reencontrei e ele ficou habitando minha imaginação, pedindo papel grande. Mas estou enroscada com as cores, como se pode notar.
Temos de chegar a  um consenso, o desenho, as cores, os materiais e eu.
e volto a fazer esboços.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Iberê em 55 segundos


Exigente? Não. Artista, artista, artista, pintor, gravador, Iberê Camargo.
A arte dele pedia boa tinta, de qualidade, a melhor (im)possível. A vida dele era aquilo de pintar por um mundaréu de horas, à exaustão.
A obra exigia tinta de verdade, com relação a pigmentos, resistência à luz. A busca pela permanência da obra já que a de si mesmo sabia inútil tentar alcançar.
Era um homem, um artista, um mestre.
Se hoje tenho para mim que os materiais precisam ser de alta qualidade, se sinto a arte com uma responsabilidade, com seriedade, com certa característica de sagrada, isso é em parte "herdada" de Iberê. Não tenho a pretensão de me colocar ao lado ou nas proximidades dele, Iberê é enorme.
Na quarta passada, assisti a um vídeo em que se vê e ouve Iberê. Ele pinta e despinta um rosto. A modelo em sua mirada.
As cores, o fazer, suas palavras:


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Diálogo




Costumo dizer que o desenho é resultado de um diálogo.
Isso mesmo, não pense que sou eu quem decide tudo num desenho. Os materiais têm suas características, suas necessidades, limites, que podem ser ultrapassados mas não de qualquer jeito.
A imagem tem seu papel essencial no diálogo, que se estabelece  desde o momento em que ela surge em mim. Ainda que ela me venha de um objeto do mundo real, vai ser transformada. Às vezes o que me atrai é um detalhe do objeto, ele vai se transformando dentro. Digo que o diálogo se faz, então, com esse fragmento, uma forma que parece ter um significado próprio, nem sempre traduzível em palavra. 
Dialogo com esses elementos, primeiro com a forma, faço esboços,  pequenos croquis a lápis. Apago, acrescento, olho, penso, converso com eles. Vou tomando decisões durante esse diálogo. Nesse corpo a corpo com a imagem, vejo: o desenho também decide. 
Depois com as cores não é diferente. 
Terminado o esboço final, muitas vezes é aí que vem a luta. Sim, há conflitos na fase dos esboços mas o momento de realizar é a prova de fogo. 
Aquela linha perfeita no esboço ao ser ampliada já não cabe mais ali. As cores escolhidas se repelem. A imagem, os materiais e eu nos desentendemos. 
Nem sempre meu processo criativo foi assim, era muito mais tranquilo quando eu fazia uns desenhos geométricos, dava até para decidir tudo no esboço, as cores se acertavam. Nos últimos anos esse diálogo/conflito vem se tornando frequente, crescente. Não explico, vou aprendendo com ele. Não nego, vou sofrendo com ele. É tenso.
O desenho acima foi um dos mais trabalhados dentro desse processo novo para mim. Com esse título, Dialogado diz tudo. Cheguei a pensar, em certa altura do fazer, que o havia destruído porque não entendia que cores ele pedia, já que claramente não eram mais as do esboço. 
É tenso, não é "tudo alegria" como dizem as pessoas quando ficam sabendo que faço arte. 
Esse desenho levou um tempo para sair do conflito, que permaneceu ainda depois de terminado.
Só assinei quando a imagem, os materiais e eu fizemos o acordo de paz.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pablo



Picasso. O giz pastel oleoso Sennelier foi criado para Pablo Picasso. Sim, o grande pintor. Ao que parece, não só para ele, já que encontrei uma história do pastel oleoso em que ele e Henri Goetz, também artista, é que insistiram com o senhor Sennelier para fazer os giz.
Ambos pretendiam obter um giz à base de óleo que dispensasse a preparação da tela (imprimação com gesso e cola animal). Eles desejaram isso em 1947 e dois anos depois, com a ajuda dos artistas, Sennelier criou o primeiro giz pastel oleoso com qualidade profissional. *
Aqui vale notar a cooperação entre os artistas e a disposição de Sennelier em aceitar o desafio lançado pelos dois. Adoro esse tipo de cooperação, é isso que faz a diferença na vida das pessoas.
O quadro reproduzido acima é a obra que deu início a um desejo meu. 
Ganhei de uma amiga, Marise, Picasso's Picassos, livro com obras que Picasso havia mantido consigo. Nele vi Femme assise devant la fenêtre (Mulher sentada diante da janela) e desde esse dia não tive mais sossego, porque logo abaixo da foto, além da data, 11.3.1937, e das medidas em polegadas, havia a informação "Pastel on canvas" (pastel sobre tela).
Na época eu desenhava com pastel seco e, de tão impressionada com aquilo, fui testar  esse pastel sobre tela. O resultado evidentemente nem chegou perto. Isso foi por volta de 1987. Eu não gostava de giz pastel oleoso, com suas cores que achava serem muito fortes para meu gosto. Estranho é que não passou pela minha cabeça testar o pastel oleoso sobre tela; também, só bem depois é que entrei em contato com ele.

Observando meus desenhos, fica evidente que, ao começar a usar, não parei mais. E essa é uma outra história, que depois eu conto.



*Fonte: Oil Pastel Society